Motivação no Trabalho: 7 Razões Para Amar o Que Você Faz

Como ter motivação no trabalho? Essa é a pergunta que tentarei responder neste artigo.

Apresentarei um conjunto de observações sobre o trabalho que, ao que parece, poucos se dão conta.

Nosso objetivo é operar uma mudança na percepção que temos do valor do trabalho e convidar você a iniciar uma transformação em sua forma de vê-lo e abordá-lo.

É raro ver as virtudes do trabalho serem expostas com clareza. Em geral, diz-se que alguém deve trabalhar para “comprar suas coisas”. Isso é verdade, mas…

Isso é tudo? Não há nada mais por baixo das ações comuns do nosso trabalho diário? Talvez haja ali um tesouro escondido, percebido apenas por poucos trabalhadores e usufruído por um número ainda menor deles.

Por que, afinal, algumas pessoas são capazes de trabalhar com um ânimo alegre e vibrante? Que razões têm para esse entusiasmo? Veem no trabalho algo que não enxergamos?

Esta será a nossa busca: encontrar razões para termos motivação no trabalho; para amar o trabalho que fazemos, não importando qual seja.

Vejamos o índice geral dos tópicos que cobriremos neste artigo. Bons estudos!

Índice Geral

  1. O Sentido do Trabalho e a Motivação Para Trabalhar
  2. Dois Modos de Considerar o Trabalho
  3. O Trabalho Como Castigo: Obstáculo à Motivação no Trabalho
    • A fuga da mediocridade
    • O segredo para a motivação no trabalho
  4. O Trabalho Como Obra: Fundamento da Motivação no Trabalho
    • O homem é mais do que a obra…
    • … e o criador é mais do que a criatura
  5. Para Que Serve Uma Obra?
    • Por que criamos?
    • Um geógrafo no campo de concentração
  6. As Obras Como Razão de Motivação no Trabalho
    • A obra interior
      • A 1ª obra interior — O fortalecimento da vontade
      • A 2ª obra interior — O desenvolvimento das virtudes
      • A 3ª obra interior — O aprimoramento e aquisição de habilidades
    • As obras exteriores
      • A 1ª obra exterior — A obra consumada
      • A 2ª obra exterior — A conduta exemplar
      • A 3ª obra exterior — Benefícios e bens materiais
  7. A 7ª Razão — O Trabalho Como Escudo do Espírito
  8. Motivação no Trabalho: Convertendo o Castigo em Obra
  9. Conclusão

O Sentido do Trabalho e a Motivação Para Trabalhar

Em geral, a descoberta do sentido mais profundo do trabalho é deixada à mercê do acaso: ninguém o aponta ou lhe faz menção.

E é deste descaso que resulta, em grande parte, a percepção de que o trabalho é apenas “um mal necessário”.

Essa percepção é antiga em nossa cultura. Os antigos romanos consideravam o trabalho como um suplício para escravos, e os bárbaros desprezavam-no como ocupação inconveniente a um povo de guerreiros.1

Se, no entanto, formos capazes de descobrir este sentido profundo, todo nosso trabalho pode ganhar cor e relevo. Pode passar a existir, para nós, nova motivação para trabalhar.

Quanto não ganharíamos se isso acontecesse!

Quanto não ganhariam nossas vidas em significado e satisfação se houvesse de nossa parte um esforço para descobrir o que há de bom no trabalho e conferir-lhe elevada importância.

Essa é a busca que empreenderemos, começando com uma avaliação dos dois modos básicos de considerar o trabalho.

Dois Modos de Considerar o Trabalho

A maioria de nós, por razões diversas, precisa trabalhar. Eis o fato: trabalhar é, para nós, um dever imperativo.

Trata-se, sem dúvida, de um fato incômodo para muitos, pois é grande o número das pessoas que considera trabalhar um castigo.

O homem maduro, no entanto, age em relação a um fato sempre do mesmo modo: ele o aceita. “Um fato é um fato”, dirá a si mesmo, “e nada posso fazer contra isso”.

O sinal da maturidade é aceitar as coisas como elas são; o da sabedoria é saber aproveitar-se do bem e evitar o mal que há nelas.

Ajustar-se da melhor maneira possível às circunstâncias reais da vida é, para aquele que deseja viver bem, dever tão imperativo quanto o dever de trabalhar.

Diante do dever imperativo de trabalhar, parece que temos apenas duas opções:

  1. Suportar o trabalho como um castigo;
  2. Mudar nossa visão e abordagem em relação a ele – isto é, transfigurá-lo em algo novo.

Escolhemos, eu e você, caro leitor, a segunda opção. Não vamos cruzar os braços e sofrer um castigo que podemos evitar – e se não o pudermos evitar totalmente, façamos o possível para evitar o que pudermos.

Certamente não podemos converter o trabalho em “pura alegria”, pois há nele, sempre e inevitavelmente, a exigência de um esforço contínuo do qual temos uma espécie de horror.

Mas é certamente possível, sobretudo se conhecemos os inimigos comuns no campo do esforço, tomar certas precauções e medidas que permitam ao trabalho nos dar alegrias.

É desta transfiguração do trabalho em algo novo que poderá surgir nova motivação para trabalhar.

O Trabalho Como Castigo: Obstáculo à Motivação no Trabalho

Há em nós um misterioso fundo de preguiça que é para a natureza humana o mesmo que é o peso para a matéria.

Temos certo horror do esforço, especialmente do esforço prolongado característico dos nossos trabalhos e empregos e necessário à toda e qualquer realização de valor.

Não nos é difícil perceber esse horror. Em geral, só aceitamos o esforço prolongado por pressão da necessidade:

  • a pressão das contas a pagar;
  • o olhar vigilante de um superior;
  • o desejo que temos de comprar algo;
  • a pressão das metas a serem batidas;
  • Etc.

O pedagogo francês Jules Payot (1859 — 1939) nos fala em seu livro A Educação da Vontade de um “estado de alma fundamental” que é o inimigo número um da vontade perseverante:

[…] há [em nós] um estado de alma fundamental, de ação absolutamente contínua, e que se denomina indolência, apatia, preguiça, ociosidade. Renovar frequentes esforços é renovar essa luta contra esse estado natural, sem aliás obter contra ele uma vitória definitiva.2

Nosso primeiro inimigo é, portanto, um “estado natural” cuja ação é “absolutamente contínua” – e seu objetivo é precisamente impedir que nossos esforços tenham qualquer continuidade. Sua missão é promover nossa preguiça, distração e dissipação.

Que inimigo poderoso! Ele não dorme!

Impera em nós, assim, certa “lei do mínimo esforço” que busca nos dissuadir de pensar e agir e nos faz pender para a mediocridade.

Mas a mediocridade deveria também nos horrorizar. Ela é a incapacidade de conceber e estabelecer ideais que qualifiquem a vida e a tornem útil e admirável.

A boa notícia é que, apesar deste “estado de alma” que estimula nossa passividade, somos capazes de fazer um bom trabalho e executar boas obras. O mundo está repleto de maravilhas feitas por aqueles que lutaram contra seu horror do esforço.

Nós podemos fazer o mesmo – e vamos fazê-lo, pois temos boas razões para isso, conforme veremos ao longo do nosso estudo.

A fuga da mediocridade

Diante deste cenário parece que devemos, mais uma vez, escolher entre duas opções:

  1. ou abraçamos o esforço para fugir da mediocridade;
  2. ou abraçamos a “lei do mínimo esforço” e, com ela, a mediocridade.

Os que decidem não lutar contra seu horror do esforço já fizeram sua triste escolha.

Nós, porém, abraçaremos o esforço e faremos o melhor trabalho que pudermos. Se realmente queremos ter motivação no trabalho devemos travar esse combate com bravura.

Não queremos exagerar aqui a importância do trabalho, mas apenas dar-lhe o lugar e importância que merece. “Aquele que só pensa em seu trabalho trabalha mal”.3

Não diremos, como disse o psicólogo argentino José Ingenieros (1877 — 1925), que “a vida vale pelo uso que fazemos dela, pelas obras que realizamos”.4 Ingenieros erra ao exagerar assim a importância das obras.

A vida vale por si mesma, por aquilo que é. O uso que fazemos dela e as obras que realizamos apenas a justificam e qualificam. O bom uso da vida confere-lhe valor extra, mas de nenhuma maneira representa, como quis o argentino, todo seu valor.

Posição mais sensata e sábia teve Louis Lavelle (1883 — 1951), que declarou o seguinte sobre a vocação particular de cada pessoa:

Não devemos ter medo de desenvolver todas as potências de nossa natureza individual, sem procurar imitar outro, nem procurar realizar em nós uma espécie de modelo comum e anônimo. Ninguém deve arrefecer esse ardor de ser ele mesmo, a única coisa que pode justificar o lugar de cada ser no mundo. O que não somos, os outros o serão, e o conjunto da humanidade é a acumulação de todas as diferenças, o que não implica seu nivelamento.5

A fuga da mediocridade, que implica no “desenvolvimento de todas as potências de nossa natureza individual”, é, portanto, “a única coisa que pode justificar o lugar de cada ser no mundo”.

É também o único meio para a conquista da motivação no trabalho. O trabalhador indiferente, apático, que vê seu ofício como simples “ganha-pão”, está destinado a viver o trabalho como um castigo.

O segredo para a motivação no trabalho

O homem medíocre é aquele que nega-se a desenvolver seus dons e talentos até qualquer ponto “acima da média”. Em seu trabalho faz apenas o básico e o essencial.

Mas é o desejo ardente de aprimorar estas capacidades que constitui o segredo para a motivação no trabalho.

Queremos escapar da mediocridade porque ela é um “sim!” à preguiça – e a preguiça é a mãe dos vícios, dos fracassos e das tristezas. Ela os faz nascer e os estimula.

É também uma negação da própria vida, pois a opção pela mediocridade nega à existência toda utilidade, beleza e perfeição que poderia alcançar. A mediocridade consentida é um apequenamento da existência.

Não precisamos de longa justificativa para rejeitar a mediocridade e declarar guerra ao nosso fundo de preguiça. Que isso baste sobre ela e seus males, que todos nós já conhecemos por experiência própria.

O Trabalho Como Obra: Fundamento da Motivação no Trabalho

Mas o trabalho, sendo para nós um dever imperativo, torna-se também nossa vocação inicial.

Eis nossa primeira mudança de visão em relação ao trabalho: o trabalho é nossa primeira vocação – e sofrerá amargo arrependimento aquele que negar-se ao esforço necessário para responder à ela.

Essa vocação inicial consiste, antes de tudo, no aprimoramento daquele que trabalha. A primeira obra do trabalho é o próprio trabalhador; e a obra acabada, o próprio homem.

O trabalho é precioso para o homem por dar-lhe um meio concreto de exercitar capacidades que promovem seu desenvolvimento e fazem florescer nele as virtudes. Esta é uma excelente razão para termos motivação no trabalho.

O homem bem formado não é o resultado exclusivo de talentos inatos, mas do trabalho qualificado, organizado e contínuo.

Mas isso não é tudo: esse “homem bem formado” é a obra interior do trabalho. Há também as obras exteriores, que são muitas, belas e desejáveis.

Trataremos destas duas classes de obras do trabalho adiante. Juntas, elas nos fornecem pelo menos sete razões para trabalharmos com motivação e amor.

O homem é mais do que a obra…

Para nós, homens e mulheres do século XXI, acostumados a enxergar o trabalho como atividade meramente utilitária, como simples meio para “ganhar dinheiro”, ouvir que “a obra do trabalho é o próprio homem” pode parecer “pura retórica”.

“A obra do meu trabalho”, protestarão alguns, “é o trabalho que entrego ao meu chefe [ou cliente] e seu fruto é a casa onde moro e a família que ajudo a sustentar”. Eles têm razão.

Mas a obra do meu trabalho não é, também, aquilo que permanece comigo quando volto para casa ao fim do dia? E se o trabalho que entrego ao meu superior é minha obra, não é obra minha também as qualidades e habilidades que desenvolvo ao trabalhar?

E qual obra é mais minha, a que entrego ou a que permanece comigo e de mim não pode ser tirada?

Mais ainda: o trabalho entregue ao superior será tanto melhor quanto mais desenvolvido e qualificado for o trabalhador, o que mostra a superioridade do trabalhador sobre o trabalho entregue.

… e o criador é mais do que a criatura

Pensemos num homem com uma vasta e bela obra exterior, digamos, Johann Sebastian Bach (1685 — 1750), o famoso compositor barroco alemão.

Entre cantatas, árias, fugas, concertos, suítes, sonatas, oratórios e outros estilos de composição, Bach produziu mais de 1.000 obras.

Seria possível, para ele, criar tantas composições sem que elas estivessem, antes, em sua própria mente e fossem, de alguma maneira, “parte dele mesmo”?

E poderiam essas obras serem criadas sem que o próprio Bach tivesse adquirido antes as qualidades pessoais e os conhecimentos de um compositor musical por meio do trabalho qualificado, organizado e contínuo?

Se o seu ser – sua intimidade, seu mundo interior – foi a fonte de onde brotou sua obra, este ser é necessariamente mais importante que a obra criada, visto que a perfeição de uma criação aponta sempre para a perfeição anterior do seu criador.

Ouvimos Bach e, se não o conhecemos, perguntamos: “De quem é essa música?”. E assim prestamos homenagem ao compositor, admirando-o por causa de sua obra e reconhecendo-o como a fonte que a fez surgir.

Assim, as obras exteriores do trabalho que realizamos dependem desta “primeira obra do trabalho” que é o próprio trabalhador.

O homem é, portanto, mais do que a obra, assim como o criador é mais do que a criatura. E essa deve ser nossa segunda mudança de visão em relação ao trabalho: somos a obra mais importante do nosso trabalho.

Para Que Serve Uma Obra?

Até aqui nosso estudo tem sido um chamado à luta contra a preguiça e um convite à realização de uma obra.

Mas para que serve uma obra? E por que criamos?

Nesta nova etapa do nosso estudo vamos aprender mais sobre as maravilhosas obras do trabalho e apresentar uma breve lista delas. Estas obras dividem-se em duas classes:

  • A obra interior. Trata-se de uma única obra, mas que se manifesta de muitas formas.
  • As obras exteriores. São várias, e através delas comunicamos a beleza e os benefícios do trabalho diligente às pessoas que nos rodeiam.

Ao tratar destas duas classes de obras o meu objetivo é estimular em você, caro leitor, uma mudança radical de visão em relação ao trabalho.

Os frutos do esforço prolongado e direcionado são excelentes demais para que qualquer pessoa, ao conhecê-los, permaneça indiferente. Conhecê-los pode fazer nascer a motivação para trabalhar que tanto desejamos.

Mas antes de abordar as obras do trabalho precisamos entender por que nós criamos.

Por que criamos?

O homem, animal racional, “vive de artes e de ciências”6, diz Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) – e todas as artes e ciências são hábitos intelectuais.

A função básica do intelecto é ordenar aquilo que chega até nós através dos sentidos – visão, audição, olfato, paladar e tato – e nessa busca de ordenação e significado reside a motivação humana básica para criar.

O homem não cria apenas porque quer, gosta ou deseja, mas sim porque precisa.

Ele só pode crescer humanamente ordenando, dando forma e criando a partir dos materiais que chegam ao seu intelecto. Se não ordena esses materiais através da criação, o homem vive na confusão.

Criar não é, portanto, uma escolha, mas uma necessidade humana.

Ao elaborar uma criação através da ordenação dos seus “materiais intelectuais” – e também, claro, da matéria-prima que encontra no mundo físico –, o homem escapa à confusão e fornece à sua realidade interior e à realidade exterior que o cerca uma estrutura inteligível na qual pode confiar para agir.

No âmbito do trabalho, a criação de uma obra pode fornecer à vida um direcionamento; pode conferir-lhe um propósito e um sentido.

E não é exatamente da “falta de sentido da vida” que tantas pessoas se queixam?

Ocupar-se com a realização de uma obra é um meio eficaz de viver uma vida dotada de propósito, sentido e direção – e isso mesmo em situações difíceis.

Um geógrafo no campo de concentração

O psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl (1905 — 1997) conta em seu livro Em Busca de Sentido um caso bastante simbólico ocorrido em um campo de concentração para judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Conta Frankl que, no meio de tantas pessoas que estavam desistindo da luta pela vida, conheceu um jovem professor de Geografia cuja motivação e força para continuar vivendo vinham de seu desejo profundo de terminar a série de livros que estava escrevendo quando a Schutzstaffel (SS) – em português, “Tropa de Proteção” – o capturou.

Neste caso dramático temos a prova de que o desejo de realizar uma obra pode sustentar a luta pela vida até nas situações mais extremas.

Temos então três razões para criar:

  1. Ordenar nosso mundo interior;
  2. Fornecer à nossa realidade exterior uma estrutura inteligível na qual possamos confiar para agir;
  3. Conferir sentido à vida, um sentido capaz de nos manter de pé mesmo diante de grandes dificuldades.

E se, mesmo diante destas razões, não quisermos lutar contra nosso horror do esforço e trabalhar na realização de uma obra?

Neste caso nos sobrará ou o trabalho como castigo ou a ociosidade tediosa, intolerável e insuportável. Nenhuma destas opções é uma opção para nós.

As Obras Como Razão de Motivação no Trabalho

Vamos explorar agora alguns dos mais importantes frutos gerados por um trabalho feito com amor.

Esses frutos são numerosos e, dado o escopo limitado deste estudo, precisamos selecionar apenas alguns deles.

Falaremos brevemente sobre três frutos da obra interior do trabalho e três frutos exteriores. Que eles sejam suficientes para nos impulsionar à alegria e à motivação no trabalho.

A obra interior

Como já dissemos, a obra interior do trabalho é o próprio trabalhador, é o homem bem formado.

O homem bem formado é aquele capaz de obter vitórias frequentes contra a preguiça, a indolência e a ociosidade. Curou-se de tais males mediante o esforço heróico do trabalho prolongado.

Mas esse esforço heróico o levou ainda mais longe e adornou seu interior com belas qualidades.

Vejamos o que muda no interior daquele que faz a firme resolução de empreender a realização de uma obra e que rejeita a possibilidade de viver segundo a “lei do mínimo esforço”.

O fortalecimento da vontade — A 1ª obra interior

O fortalecimento da vontade é um dos mais valiosos frutos do trabalho que visa construir uma obra.

Todo homem produtivo um dia estudou sua vontade – e, talvez, não só a sua vontade, mas o mecanismo geral da vontade – e trabalhou nela.

Do que uma vontade forte não é capaz? Ela é o motor da história.

O que daríamos nós para possuir uma vontade responsiva, sempre dócil às ordens de nossa inteligência?

Que maravilha seria se nos fosse possível, ao sermos inspirados por um pensamento favorável, arregaçar as mangas e começar a trabalhar imediatamente – sem o freio do nosso fundo incoercível de preguiça.

Pois bem, a conquista da própria vontade está ao alcance dos que desejam abraçar o esforço do trabalho contínuo e ordenado. Pouco a pouco, vencendo aqui e ali sua preguiça, começa a existir para o trabalhador a possibilidade real de tornar-se ativo em toda parte e sempre.

A vontade forte, obediente à inteligência e forjada nos muitos combates contra os maus hábitos, não conhece limites nem obstáculos: pode e faz tudo o que é necessário para concluir sua obra.

É também, como qualquer um pode confirmar se buscar na memória a lembrança de uma vitória contra a preguiça, fonte de imensa satisfação.

Aquele que é senhor de sua vontade é feliz – e o desejo desta conquista da vontade forte deve ser, para nós, fonte de motivação no trabalho.

O desenvolvimento das virtudes — A 2ª obra interior

Tantas são as virtudes que florescem na personalidade daquele que se esforça para amar o esforço prolongado do trabalho!

A diligência, isto é, o zelo com que se executa toda e cada tarefa, reluz como ouro aos olhos daqueles que trabalham segundo a lei do mínimo esforço.

A generosidade nos esforços pode espalhar-se para outras áreas além do trabalho: para a família, os amigos, os necessitados, etc. Todos ganham.

A paciência desenvolve-se admiravelmente, pois é constantemente exercitada através dos muitos obstáculos que o trabalho coloca diante de nós e que precisamos vencer.

Estes mesmos obstáculos, fazendo-nos fracassar com alguma regularidade, impulsionam o desenvolvimento da humildade, a virtude que visa “moderar o desordenado apetite da própria excelência, dando-nos o justo conhecimento de nossa pequenez”.7

E assim poderíamos seguir listando um grande número de virtudes e bons hábitos que nascem e crescem na alma do amante do trabalho. Eles são muito diversos e variam de acordo com a natureza do trabalho exercido e a personalidade do trabalhador.

O aprimoramento e aquisição de habilidades — A 3ª obra interior

O aprimoramento das habilidades possuídas e a aquisição de novas habilidades são uma consequência natural do trabalho regular.

Assim como um músculo, ativado repetidamente por certos exercícios, torna-se maior, mais forte e capaz de responder com mais velocidade e precisão às ordens do cérebro, assim também uma habilidade exercitada regularmente torna-se mais aprimorada em todos os sentidos.

Um músico que passa horas por dia praticando em seu instrumento torna-se capaz de tocar escalas e frases musicais com velocidade espantosa, podendo ser considerado, com justiça, um virtuoso.

O varredor de rua ou o profissional de uma cozinha que ame o seu ofício torna-se capaz de manipular seu instrumento de trabalho – a vassoura, a pá, a faca, a esponja – com destreza e naturalidade belíssimas.

O trabalhador intelectual, mergulhado diariamente em seus livros e escritos, aprimora sua capacidade de estabelecer ricas relações entre idéias e fazer distinções sutis entre conceitos, o que confere ao seu trabalho a capacidade de ser uma luz que dissipa as trevas da ignorância.

Mas o trabalho heróico, além de aprimorar habilidades já existentes, pode desenvolver novas competências.

Assim, um trabalhador tímido, participando de um ambiente de trabalho socialmente vibrante, poderá adquirir a sociabilidade que lhe faz falta.

Aqueles que têm dificuldade para falar em público, poderão, pouco a pouco, conquistar o “traquejo” da comunicação empresarial e organizacional.

Enfim, um vasto conjunto de novas capacidades se integra àquelas já possuídas pelo trabalhador, tornando-o mais completo e competente em seu ofício.

As obras exteriores

Mas o amor ao trabalho também faz florescer obras exteriores e visíveis; obras úteis e dignas de serem desejadas e buscadas.

Através delas o trabalhador não faz o bem apenas a si mesmo, mas comunica aos outros os benefícios do combate à preguiça e do trabalho considerado como algo elevado e não como mero castigo.

A comunicação da virtude do trabalho por meio destas obras costuma ter grande eficácia, pois tratam-se de bens facilmente percebidos por todos.

Para a maioria das pessoas, as obras exteriores são mais eficazes para promover o crescimento da motivação no trabalho. Vejamos algumas delas.

A obra consumada — A 1ª obra exterior

Um texto publicado, uma rua bem varrida, uma engenhosa planilha de custos, um vídeo bem editado, um software desenvolvido, etc. – todo trabalhador sente uma doce satisfação ao contemplar a obra de suas mãos.

E tanto mais intenso será esse contentamento quanto maior tiver sido o seu esforço, pois “o artífice mais ama a arte em que mais trabalhou”.

Num momento de desânimo, de sentimento de incapacidade, poderá essa obra erguer o trabalhador, fazendo-o perceber, por uma simples lembrança ou olhar, sua capacidade já provada.

Trabalhar; trabalhar para edificar a obra
Nos alicerces o sacrifício, no topo o esplendor da glória!
André Valongueiro, poema “Valores”

A recompensa de uma obra é tê-la feito; a recompensa do esforço é ter crescido.

E ainda que o trabalho realizado tenha sido entregue para que outro o possua e usufrua dele, ele continua nos sendo útil, pois o aprimoramento de nossa potência criadora nos pertence exclusivamente.

A conduta exemplar — A 2ª obra exterior

O bom trabalhador, dedicado e competente, faz de si mesmo um convite à excelência. Sua conduta convida os que o cercam a tomarem seu exemplo como modelo.

Não se deve com isso, porém, permitir que cresça nossa vaidade. Nosso exemplo convidativo é mera consequência de um trabalho bem realizado e não um bem a ser usufruído por nosso amor-próprio.

O que se deve “querer sem querer” é tão somente mover os corações, tirando-os da indigência da preguiça para conduzi-los ao trabalho que tornará suas vidas mais felizes e ricas.

As obras realizadas também têm esse poder, mas no comportamento do trabalhador esse convite ao trabalho é um convite vivo, que pode falar, orientar, sugerir caminhos, encorajar.

Ser exemplo para outros é grande honra e responsabilidade, é “um dom que se faz de si”8 e do qual não se deve buscar tirar proveito. É uma grande fonte de motivação no trabalho.

Benefícios e bens materiais — A 3ª obra exterior

Entre as obras exteriores, não podemos deixar de fora os diversos benefícios que adquire com merecimento o bom trabalhador:

  • Um bom salário ou lucro financeiro, que permitirá a compra daquilo que se deseja e a realização de sonhos;
  • Uma promoção para cargos e posições mais importantes dentro de uma organização;
  • A admiração aberta e sincera dos colegas de trabalho;
  • A honra, que é, segundo Aristóteles, “efetivamente o maior do bens externos”.9

Estes são os frutos mais conhecidos do trabalho e muitos trabalhadores parecem acreditar que eles sejam os únicos e os mais importantes.

No entanto, um trabalho cujos frutos fossem apenas o dinheiro e a admiração dos colegas se tornaria, cedo ou tarde, uma ocupação cansativa e desprovida de um sentido capaz de manter acesa a chama do nosso entusiasmo.

Os ganhos financeiros, depois de algum tempo, tornam-se um hábito e a honra com que um homem é honrado depende mais daqueles que a proporcionam do que daquele ao qual é proporcionada.

Os benefícios e os bens materiais conquistados pelo bom trabalhador são úteis e desejáveis, mas é preciso que eles somem-se aos outros bens interiores e exteriores para que a alegria do trabalhador seja mais completa.

O Trabalho Como Escudo do Espírito — A 7ª Razão

O trabalho nos livra de muitos males do espírito, isto é, de muitos sentimentos negativos e pensamentos vagos.

Uma ação concentrada, preocupada em produzir um bom e belo efeito, impede que surja em nós a inveja, o ciúme, o medo e tantos outros sentimentos que obscurecem o brilho da vida.

A atividade inteiramente presente, preenchendo todo o campo da nossa consciência, livra-nos da divagação inútil, da evagatio mentis, a “vagabundagem mental” que deixa penetrar em nós as mais variadas idéias, muitas delas nocivas à nossa saúde psicológica.

De tudo isso nos protege o trabalho que visa realizar uma obra.

Mas tão logo nossa atividade declina, aparecem espaços entre os acontecimentos do presente e nossas aspirações.

Por esses espaços infiltram-se em nós os pensamentos das coisas que nos faltam, tanto daquelas que tínhamos e perdemos como daquelas gostaríamos de possuir – e aí começamos a sofrer.

Declinada totalmente nossa atividade, caímos no ócio, que abre as portas para os devaneios da imaginação. E a imaginação estimula em nós as “fantasias de desgraça”, o conjunto dos pensamentos trágicos – e quase sempre fantasiosos – que nos perturba e nos priva da alegria e da paz.

Sucumbimos, assim, às misérias do amor-próprio desordenado e tudo se torna para nós uma carga. Pior ainda: nos tornamos uma carga para nós mesmos.

Mas tão logo nossa atividade se reanima e voltamos ao trabalho, fechamos todas as portas e espaços por onde esses males se infiltram – e assim somos libertados.

O espírito é um ato contínuo. Devemos dar a ele todo movimento e ocupá-lo sempre com os bons trabalhos. Assim que ele relaxa e cede ao ócio, abre espaço para que se instalem em nós as doenças da mente, da alma e do corpo.

A ação é o escudo do espírito: se ele torna-se inativo muitos males o penetram e o consomem.

Motivação no Trabalho: Convertendo o Castigo em Obra

Todo o segredo para converter o “trabalho como castigo” em “trabalho como obra” – e conquistar, assim, a motivação no trabalho – reside na capacidade de enxergar o esforço como um chamado às alegrias mais puras e perfeitas.

É preciso desfrutar do trabalho, fazendo-o com simplicidade e inocência, livre da ambição e da vaidade que o tornam pesado e estressante.

Para a eficácia dos teus afazeres, naturalidade. Tudo o que se faz com avidez de sofisticação e desejo de parecer extraordinário, torna-se difícil, pesado e custoso; além de, não raro, converter-se em vulgar. André Valongueiro, 55 Meditações e Broncas

Mais proveitoso do que iniciar aqui o tratamento dos meios práticos para o desfrute do trabalho é indicar os diversos escritos já publicados neste espaço sobre o tema.

Os artigos abaixo tratam de estratégias práticas fundamentais para trabalhar bem e podem ser um grande auxílio para aqueles que desejam mudar sua abordagem em relação ao trabalho:

Se você deseja uma ajuda pessoal e direta – que é, sem dúvida, a melhor ajuda possível –, eu convido você a conhecer meu trabalho como coach. Posso fazer de você um excelente trabalhador e contribuir muito com o seu sucesso pessoal e profissional.

Você pode agendar gratuitamente uma primeira sessão de coaching ou obter mais informações sobre o meu trabalho antes de realizar seu agendamento.

E se você nutre algum preconceito ou desconfiança em relação ao coaching, eu o convido a ler o tratamento que dei ao assunto no artigo O Que é Coaching? Uma Resposta Científica e Filosófica.

O coaching é uma arte nobre. Ele promove o desenvolvimento humano e, em muitos casos, aplaca o sofrimento, a frustração e o sentimento de incapacidade experimentados por tantas pessoas.

Conclusão: É Possível Ter Motivação no Trabalho

Fizemos uma significativa exploração do problema da motivação no trabalho, considerando-o, ainda que brevemente, por diversos ângulos.

Vejamos um resumo estruturado de tudo o que exploramos neste estudo:

  • O trabalho impõe-se a nós como:
    1. um dever imperativo.
  • Há dois modos de considerá-lo:
    1. como um castigo;
    2. como nossa vocação inicial.
  • A primeira obra desta vocação inicial ao trabalho é:
    1. o próprio trabalhador, aprimorado pelo trabalho que realiza – é o homem bem formado.
  • O trabalho é precioso para o homem porque:
    1. fornece-lhe um meio concreto de exercitar capacidades que promovem seu desenvolvimento e fazem florescer nele muitas virtudes.
  • Sobre a relação entre o homem e seu trabalho deve-se entender que:
    1. o homem é mais do que a obra;
    2. o criador é mais do que a criatura.
  • As obras do trabalho dividem-se em duas classes:
    1. a obra interior;
    2. as obras exteriores.
  • Fazemos obras – isto é, criamos – porque:
    1. só podemos crescer humanamente ordenando, dando forma e criando a partir dos materiais que chegam ao nosso intelecto – criar não é, portanto, uma escolha, mas uma necessidade.
  • Temos pelo menos três razões para criar:
    1. ordenar nosso mundo interior;
    2. fornecer à nossa realidade exterior uma estrutura inteligível na qual possamos confiar para agir;
    3. conferir sentido à vida, um sentido capaz de nos manter de pé mesmo diante de grandes dificuldades.
  • A obra interior do trabalho manifesta-se de muitas formas – algumas delas são:
    1. o fortalecimento da vontade;
    2. o desenvolvimento das virtudes;
    3. o aprimoramento e aquisição de habilidades.
  • Algumas das obras exteriores são:
    1. a obra consumada, terminada – isto é, o produto do trabalho;
    2. a conduta exemplar, digna de ser tomada como modelo por outros;
    3. benefícios e bens materiais.
  • O trabalho nos livra de muitos males psicológicos, entre eles:
    1. os sentimentos negativos;
    2. os pensamentos vagos (evagatio mentis).

Espero que a investigação que realizamos tenha sido capaz de promover mudanças na sua maneira particular de enxergar o trabalho e seus benefícios.

O trabalho pode ser maravilhoso, desde que sejamos capazes de fazer o que aconselhava o sábio Eclesiastes: fazer com que a alma se alegre em meio ao trabalho.

Se você precisar de ajuda para isso, conte comigo: conheça meu trabalho como coach. Será um prazer ajudar você a fazer do seu trabalho fonte de prazer e satisfação, e não apenas de sofrimento e frustração.

Coaching com André Valongueiro – Saiba mais sobre como ter motivação no trabalho.

Notas

  1. Ruy Afonso da Costa Nunes, História da Educação na Idade Média, 2ª edição, p. 108.
  2. Jules Payot, A Educação da Vontade, 1ª edição, p. 23.
  3. A.D. Sertillanges, A Vida Intelectual, 2014, p. 182.
  4. José Ingenieros, O Homem Medíocre, 3ª edição, p. 40.
  5. Louis Lavelle, Regras da Vida Cotidiana, 2011, p. 56.
  6. Aristóteles, Metafísica, 980 b 30.
  7. Antonio Royo Marín, Ser Santo ou Não Ser Santo… eis a questão, 2018, p. 213.
  8. Louis Lavelle, Regras da Vida Cotidiana, 2011, p. 73.
  9. Aristóteles, Ética a Nicômaco, Edipro 4ª ed. 2014, p. 158.