Sobre os grandes homens, a essência da grandeza e o poder da ação

Com frequência acreditamos que os grandes homens que admiramos carregam ou carregaram uma espécie de “aura de glória”.

No entanto, ao aprender sobre a vida de personalidades importantes, frequentemente percebemos que a causa da grandeza deles é mais simples e familiar do que a nossa imaginação, sempre disposta a voar alto, poderia suspeitar.

Bastaria uma contemplação sincera dos homens à nossa volta para encontrar neles virtudes e potências semelhantes àquelas existentes nos grandes homens que admiramos.

O nosso amor-próprio, no entanto, hesita em reconhecer os heróis ao lado: frequentemente só temos força para admirar os que conquistaram o prestígio público.

A verdade, no entanto, é que muitas grandes realizações – ainda que não recebam grande reconhecimento popular – são feitas todos os dias diante dos nossos olhos e nada mais são que a soma e o arremate de várias realizações menores.

Aliás, não há pessoa, por simples e medíocre que seja, que não possua alguma superioridade em relação aos indivíduos mais capazes. Todos somos, de alguma maneira, capazes de grandeza.

Os maiores e menores homens enfrentam os mesmos acontecimentos essenciais da vida – o amor, o sofrimento, a morte – e muitas vezes, nesses momentos mais cruciais, os que haviam sido julgados inferiores apresentam então sua superioridade.

Stephen King
O escritor norte-americano Stephen King é um ótimo exemplo para mostrar que as grandes realizações “nada mais são que a soma e o arremate de várias realizações menores”: escrevendo apenas 2.000 palavras por dia, um número pequeno para um escritor experiente, ele construiu uma das carreiras de maior sucesso no mercado editorial mundial. Um mestre!

A grandeza das obras e a grandeza do ser

Quase sempre admiramos os homens por aquilo que criaram; e criar é usar uma capacidade que recebemos gratuitamente e desenvolvemos por nosso esforço.

Mas nem todo valor de uma pessoa encontra-se naquilo que ela cria: o ser humano é sempre superior ao fruto do seu trabalho.

A grandeza enxergada numa obra de criação – num livro ou numa inovação tecnológica, por exemplo – é apenas um sinal visível da grandeza maior do homem que a produziu.

A grandeza do homem não depende da criação de nenhuma obra visível e muitos seres são grandes simplesmente pelo que são, e não pelo que fazem.

Sócrates
Sócrates (469 a.C. — 399 a.C) não nos deixou nenhuma obra escrita, mas é tido por muitos como o mais sábio dos homens. Sabemos de sua existência e ensinamentos por meio do seu discípulo Platão (428 a.C. — 348 a.C.), que apresentou em muitas de suas obras o modo superior de vida do seu mestre. Sócrates foi grande pelo que foi.

Ser grande “pelo que se é”

Mas o que significa, exatamente, ser grande “pelo que se é” e não “pelo que se faz”?

Essa pergunta certamente poderia receber muitas respostas diferentes – ou uma única resposta muito longa e detalhada –, mas quero apenas apresentar uma resposta pessoal simples.

Da minha parte, considero grande a pessoa cuja ação é livre e desimpedida – a pessoa que, ao agir, o faz sem nenhuma hesitação, preguiça ou procrastinação.

Por meio de todas as atividades que realiza – do ato simples de lavar um prato ao espetáculo da produção de uma obra – ela nos apresenta um modo superior de viver.

Quem de nós não desejaria viver assim, livre dos obstáculos que a nossa própria vontade (ou a falta dela!) coloca diante de nós?

Tudo nos seria possível!

Que grandeza humana pode ter mais valor do que essa capacidade que é a base de toda e qualquer realização pessoal?

Sem esse poder de ação soberano, livre dos impedimentos de uma vontade fraca, o que podemos fazer?

A ação despretensiosa

Nisso consiste a grandeza dos grandes homens que admiramos: na capacidade de realizar seus projetos por meio de uma ação livre e desimpedida.

Admiramos isso nos homens distantes e famosos, mas devemos admirá-lo também naqueles que estão próximos.

E o que pode nos dar essa ação livre e desimpedida? O agir despretensioso em todas as coisas – nas pequenas e nas grandes, nas simples e nas complexas – e naquelas que, por amor também despretensioso, fazemos em benefício de outros.

Pois é o desejo do resultado e do benefício próprio que conferem à ação um peso que dificulta o seu movimento e a torna fraca e hesitante.

A ação mais natural e mais desprovida de interesse próprio é sempre a mais leve e fácil de ser executada.

As realizações pessoais que aspiramos precisam ser o efeito secundário e a consequência natural da nossa busca por esse modo de vida superior.

Viktor Frankl
“Não aspirem ao sucesso — quanto mais a ele aspirarem e dele fizerem um alvo, mais vocês falharão. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer… como se fosse o efeito secundário involuntário da dedicação pessoal a algo cuja grandeza nos ultrapassa.” — Viktor Frankl

Conclusão

Eu espero sinceramente que essas palavras tenham, de alguma forma, encontrado espaço e ecoado em você.

Quando escrevo, nada para mim é mais importante do que iluminar a inteligência do leitor e deixar nele uma marca.

Se isso aconteceu, use os botões acima e compartilhe esse artigo com os seus amigos. E não deixe de cadastrar seu e-mail abaixo para receber as novidades do blog.

Dúvidas ou sugestões? Deixe um comentário abaixo, eu respondo 100% deles!

Um grande abraço!

  • Ótimo post, André! Sempre com clareza e simplicidade, marca de seus artigos. Adorei a reflexão. Grande abraço!

    • Grande Marcos, você sempre presente! Obrigado mais uma vez pela participação e pelo elogio, fico feliz que tenha gostado. Um abraço!

  • Celso Fonseca

    Valongueiro, que texto! Bem diferente do que costuma aparecer por aqui. Embora prefira os artigos mais práticos com estratégias em passos, esse conteúdo me agradou muito. Parabéns mais uma vez e continuo de olho em tudo. Grande abraço!

    • Fala, Celso! Não se preocupe, os artigos com métodos e estratégias em passos vão continuar aparecendo por aqui. Um deles já está até no forno! 😉

      Um abraço!

  • “…hesita em reconhecer os heróis ao lado”. E temos tantos heróis ao nosso lado e não percebemos e/ou não damos o devido valor! Pais, mães, avós, tios, amigos, conhecidos, … são tantos.

    Esse texto me fez refletir sobre a simplicidade das ações e o quão elas são, por serem simples, grandiosas.

    Muito obrigado André por compartilhar esse texto riquíssimo e ter presenteado com várias reflexões.

    []’s
    mauro

    • Bora, Maurinho! Muito obrigado, meu velho!

      De fato as ações mais simples tornam-se grandes quando dotadas de uma intenção nobre e de um certo esquecimento de si mesmo. Chegou a comprar o livro do Louis Lavelle? Ele discorre longamente sobre a ação humana num livro chamado “A Consciência de Si”. A leitura não é fácil, mas é certamente válida.

      Um abraço!

  • Alexandre Guimaraes

    Grande Valongueiro!
    Obrigado pelo texto. Pela questão tão presente em nossos dias que não nos é percebida.
    Abraço

    • Fala, Xande! Obrigado, meu velho. Fico feliz que tenha gostado e espero que esteja tudo bem por aí.

      Um abraço e se cuida!

  • Rafael Frederice

    Ótima visão, André!

  • Patricia Couto

    A frase final do Vitor Frankl fez cair a ficha do que vc quis transmitir. na medida!

    • Pati, cuidado: nem tudo o que eu quis dizer está nessas palavras do Viktor Frankl. Mas eu entendo que, pelo menos num certo sentido, as palavras do Frankl resumem o que falei, por isso as coloquei no final do texto. Peço desculpas pela dificuldade que tenho de colocar idéias maiores e mais profundas no papel. Espero melhorar um pouco com o tempo.

      Seja como for, o importante é que a idéia chegou até você. É um prazer tê-la como leitora! 🙂

  • Maria Helena Mota

    Concordo plenamente com a sua visão sobre as grandes personalidades. Por vezes elas/eles vivem paredes meias connosco e, uma vida inteira não é bastante para reconhecê-los. Para esses homens e mulheres , simples mortais mas que realizam grandes obras (estou a pensar, por exemplo, nas donas de casa a tempo inteiro sem qualquer regalia, mas há também homens simples mas valorosos) – e são tantos e tantas! Para eles eu tenho um nome à altura dos seus méritos: são os heróis e heroínas anónimas!
    De facto, o sucesso, tal como a felicidade não se procura. Vai-se construindo a pouco e pouco. Porém, existe um passo de gigante entre eles: podemos viver felizes sem o sucesso mas creio que o sucesso é um estado efémero e muito ténue e não é uma garantia de felicidade.
    Como sempre, um bom artigo que se presta a grandes reflexões e a outras tantas maneiras de ver.
    Um bom final de semana para si, André. E que continue a brindar-nos com os seus bons artigos.
    Grande abraço.

    • Que comentário maravilhoso, Maria. Obrigado por participar e me desculpe a longa demora para te responder. Um abraço!

  • Joana Costa

    André, adoro sua existência! Certamente você age despretensiosamente e assim vai acrescentando a si experiencias e resultados positivos. Usando suas palavras: “Você tem iluminado minha inteligencia e, com isso, tenho conquistado novos gerenciamentos pessoais. Gostaria que você me indicasse uma biografia inspiradora para a minha interminável busca pelo auto conhecimento, controle e equilíbrio para a vida.
    Um abraço e mais um obrigada!

    • Obrigado, Joana. Muito bem saber que meus artigos te ajudam! 🙂

      Uma biografia? A do Isaac Newton escrita pelo James Gleick. Newton foi um dos homens mais curiosos da história. Outra sugestão seria uma biografia do Napoleão Bonaparte, um personagem histórico do qual sou muito fã.

      Um abraço!