Como Definir Seus Valores Pessoais e Colocar Sua Vida no Rumo Certo

Tempo de leitura: 16 minutos

Imagine que você possui um Plano de Vida bem definido. E que a primeira coisa que aparece neste plano é uma lista hierarquizada dos seus principais valores pessoais.

Agora imagine que todas as suas tarefas, projetos e compromissos estão em sintonia com esses valores.

Como seria a sua vida? Certamente você teria a sensação de que ela tem uma direção bem definida e de que o seu tempo está sendo bem utilizado — e isso seria para você motivo de satisfação.

A harmonia entre nossas atividades e valores é fonte de contentamento. Ela pode ser alcançada, mas para isso precisamos conhecer e estar seguros dos nossos valores pessoais.

Os valores são o ponto de partida de um bom projeto de vida. A partir deles todo o resto pode ser descoberto com relativa facilidade: nossa vocação, propósito, a carreira profissional mais adequada para nós etc.

Neste artigo, vamos investigar a natureza e importância dos valores e aprender o método que nos permitirá descobri-los de forma segura.

Para começar, assista ao vídeo abaixo, no qual explico a importância dos valores pessoais. Depois continue a sua leitura.

A Importância de Conhecer os Seus Valores Pessoais

A mensagem do vídeo é clara: sem a harmonia entre nossos valores e a vida que estamos levando, não podemos ser felizes.

A insatisfação com a vida está sempre relacionada a esta falta de sintonia entre o que realmente valorizamos e o que estamos efetivamente fazendo.

Podemos dizer, sem exagero, que as mais importantes decisões da vida dependem, para serem bem tomadas, do bom conhecimento dos nossos valores.

A descoberta da nossa vocação, a escolha de uma carreira profissional adequada, a definição do nosso propósito, tudo isso depende diretamente deste conhecimento.

E assim com muitos outros aspectos da nossa vida: nossa configuração familiar, a escolha das nossas amizades, projetos, empreendimentos etc.

Todos nós, conscientemente ou não, temos uma série de valores pessoais que são cruciais para a construção de uma vida feliz.

Quando a vida que estamos levando não preenche esses valores, temos uma sensação de vazio, de tristeza, de que alguma coisa está errada.

O problema é que são poucas as pessoas que conhecem de forma clara os próprios valores.

A importância de conhecer nossos valores pessoais reside no fato de que, conhecendo-os, podemos fazer escolhas e tomar decisões visando preenchê-los — e preencher nossos valores nada mais é do que fazer-nos felizes e satisfeitos.

Leia também: Como Encontrar Seu Propósito de Vida e Descobrir Sua Vocação

O Que São os Valores?

O valor é o princípio norteador das escolhas humanas e representa aquilo que é desejável e preferível.

Nossos valores são o alicerce oculto da nossa conduta e exercem influência direta e determinante sobre a nossa vontade, pensamentos e ações.

Para os fins práticos deste artigo, podemos dizer que valor é aquilo que satisfaz1. Vejamos alguns exemplos:

  • A verdade satisfaz o conhecimento e, por isso, a verdade é um valor para o conhecimento;
  • A beleza satisfaz a admiração e, por isso, a beleza é um valor para a admiração;
  • O sabor satisfaz o gosto e, por isso, o sabor é um valor para o gosto.

Valorizar é reconhecer e estimar — e este reconhecimento e estima são concedidos a um objeto de acordo com a sua capacidade de satisfazer uma necessidade.

Assim, o conhecimento valoriza a verdade porque tem necessidade de conhecer a verdade. E o mesmo ocorre com a admiração, que tem necessidade de admirar a beleza; e com o gosto, que tem necessidade de experimentar o sabor.

Um valor exprime, portanto, uma relação entre uma necessidade e a capacidade que um determinado objeto tem de satisfazer esta necessidade.

Assim, uma coisa é mais ou menos valorizada na medida em que satisfaz de modo mais ou menos perfeito uma necessidade.

Podemos concluir, então, que a descoberta dos nossos valores pessoais dá-se pelo esclarecimento das nossas necessidades mais importantes. Vejamos agora um método eficaz para realizar esta descoberta.

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Como Descobrir Seus Valores Pessoais

Para chegar aos nossos valores devemos esclarecer quais as nossas necessidades. Não as necessidades que temos em comum com todos os seres humanos, mas aquelas que, de algum modo, nos diferenciam da massa dos homens.

Vamos chamar estas necessidades de necessidades distintivas.

Não queremos com isso dizer que estas necessidades sejam absolutamente únicas, mas apenas que não são compartilhadas por todos os homens.

Digamos, por exemplo, que uma pessoa tenha necessidade de conhecimento.

Ora, há muitas pessoas que possuem esta necessidade, mas esta não é uma necessidade comum a todos os homens. De fato, o número de pessoas que tem necessidade de conhecimento é bastante reduzido se comparado ao total de habitantes de uma cidade ou país.

Esta necessidade de conhecimento é, portanto, uma particularidade daqueles que a possuem — é uma necessidade distintiva deles.

Mas como descobrir nossas necessidades distintivas? Santo Tomás de Aquino (1225 — 1274) nos dá uma importante dica:

É natural ao homem elevar-se ao inteligível pelo sensível [ou material], porque todo o nosso conhecimento se origina a partir dos sentidos [que captam as realidades materiais].

Nossos valores pessoais são idéias, ou seja, bens inteligíveis.

Podemos, portanto, chegar até eles a partir da investigação dos bens materiais que consideramos importantes. Partindo destes bens, podemos descobrir (inteligir) facilmente nossas necessidades distintivas.

Se, por exemplo, possuo muitos livros e gosto de lê-los e de aprender com eles, este “gostar dos livros” indica claramente que possuo necessidade de conhecimento.

Esta necessidade, por sua vez, “aponta” para valores como conhecimento, cultura, ciência ou sabedoria. Estas palavras, apesar de possuírem semelhanças, possuem também diferenças. Precisarei agora avaliar qual delas descreve de modo mais preciso a necessidade distintiva de conhecimento que possuo.

Feito isso, terei descoberto um dos meus valores pessoais. Devo agora olhar para outros bens materiais e realizar esta mesma operação mental que “eleva-me ao inteligível pelo sensível”.

A descoberta dos nossos valores pessoais dá-se, portanto, através de um exercício de autoconhecimento que podemos descrever em 3 passos:

  1. Identificar os bens materiais que consideramos importantes;
  2. Esclarecer as necessidades distintivas que estes bens satisfazem;
  3. Chegar, a partir destas necessidades distintivas, até os valores pessoais correspondentes.

Uma pessoa que possua um maior grau de autoconhecimento e já conheça com segurança suas necessidades distintivas poderá, no entanto, suprimir o primeiro e o segundo passo, chegando aos seus valores pessoais a partir das necessidades distintivas que já conhece.

3 Erros Comuns na Definição dos Valores Pessoais

O método que nos conduz, a partir dos bens materiais, à descoberta dos nossos valores pessoais, é bastante objetivo e eficaz.

Na aplicação deste método, porém, podemos incorrer em interpretações falsas das nossas necessidades, que nos conduzirão, por sua vez, à descoberta de valores enganosos ou imprecisos.

Há pelo menos 3 erros que devem ser evitados durante o processo de descoberta dos seus valores pessoais. Esteja atento a eles.

1. Definir valores genéricos ou imprecisos

O primeiro erro diz respeito à definição de valores extensivos a todos ou a maior parte dos seres humanos.

Não estamos em busca de valores genéricos ou coletivos, mas de valores pessoais que decorrem de necessidades distintivas.

Se, por exemplo, alguém declara que alegria é uma de suas necessidades e, partindo desta necessidade, conclui que felicidade é um dos seus valores, essa pessoa não descobriu um valor pessoal.

Isso porque alegria não é necessidade distintiva, visto que todas as pessoas sentem necessidade de alegrar-se.

Do mesmo modo, felicidade é um valor universal, não pessoal. Com efeito, a felicidade é o fim de todas as ações humanas em todos os tempos. Não há nada de distintivo ou pessoal em querer ser feliz.

O primeiro erro, portanto, é eleger para si valores coletivos ou genéricos. Valores como felicidade, respeito, paz e honestidade não servem ao propósito de orientar nossa vida de modo preciso.

Estamos em busca de valores capazes de nortear nossos pensamentos e ações diante das decisões e escolhas mais difíceis da vida.

Os valores universais continuam tendo sua importância, claro, mas não precisam figurar em nossa lista de valores pessoais, pois são valores implícitos e subentendidos.

2. Falsificar nossas necessidades

O segundo erro diz respeito ao julgamento equivocado que podemos fazer acerca das nossas necessidades e valores.

Duas influências principais podem interferir neste julgamento: a publicidade e os nossos afetos. Pensemos primeiro na publicidade.

Qual a missão dos profissionais de publicidade, propaganda e marketing? Despertar em nós a sensação de necessidade.

Todo o trabalho destes profissionais consiste em fazer-nos acreditar que temos necessidade do produto ou serviço oferecido numa peça ou campanha publicitária.

Algumas vezes, claro, a necessidade que despertam em nós é verdadeira. Outras vezes, no entanto, a necessidade é criada em nós mediante um processo de convencimento cuidadosamente pensado e executado.

Publicitários, designers, editores de vídeo, psicólogos, vendedores etc. — profissionais de múltiplas áreas trabalham dia e noite para despertar ou criar em nós, por meio de palavras e imagens, as mais variadas necessidades.

Essas necessidades introduzidas em nós podem conduzir-nos à uma definição adulterada dos nossos valores pessoais.

Não podemos, portanto, permitir que a publicidade, ao determinar nossas necessidades, faça-nos definir para nós um conjunto de valores que não corresponde à realidade das nossas verdadeiras aspirações.

Esse mesmo engano pode ser causado também por nossas desordens afetivas.

A inveja, o ciúme, o medo, a competitividade e outros sentimentos podem facilmente distorcer o entendimento que temos acerca das nossas necessidades, falsificando assim o conjunto dos nossos valores pessoais.

Quantas vezes na vida não fomos levados a desejar o que alguém próximo a nós, amigo ou adversário, tinha ou fazia? É algo extremamente comum.

As pessoas dotadas de menos autoconhecimento e desprovidas de um propósito de vida claro são as mais suscetíveis a serem conduzidas pela publicidade e pela desordem dos próprios afetos.

Precisamos, portanto, ser capazes de discernir entre necessidades reais e falsas, isto é, entre necessidades que brotam do nosso íntimo e necessidades que nascem da influência de terceiros ou da confusão dos sentimentos.

Leiam também: Inveja: Como Identificar, Superar e Proteger-se – Um Guia de Combate

3. Temer a definição objetiva dos valores

O terceiro erro é o medo que muitas pessoas têm de declarar os próprios valores de modo franco e objetivo. Esse temor costuma nascer do receio de estarem erradas.

Mas não há razão para esse medo. Nossos valores pessoais nunca são definidos de uma vez para sempre. Eles sofrem modificações com o passar do tempo.

A razão disso é que nossos valores pessoais surgem do esclarecimento das nossas necessidades, e estas mudam com o tempo.

É da natureza da própria necessidade deixar de existir assim que é satisfeita.

Se tenho fome, isto é, necessidade de comer, e me alimento, esta necessidade desaparece.

Do mesmo modo, se cultivo o valor conhecimento por tempo suficiente para conhecer o que desejo conhecer, posso julgar que agora minha necessidade já não é conhecer, mas progredir espiritualmente ou utilizar todo o conhecimento obtido para ganhar dinheiro.

No processo de definição dos nossos valores pessoais não existe propriamente o certo ou o errado. Em geral, o que chamamos de erro é apenas imprecisão ou vagueza, como no caso dos valores genéricos que comentamos acima.

Ao procurar descobrir seus valores pessoais, não se preocupe tanto em “estar certo”, pois sempre será possível revisá-los e fazer os ajustes necessários.

Para exemplificar como essas modificações acontecem ao longo do tempo, vejamos alguns exemplos reais.

Exemplos de Valores Pessoais e Profissionais

Vejamos agora alguns exemplos reais de valores pessoais e de modificações efetuadas nesses valores ao longo do tempo.

Os exemplos foram extraídos dos Relatórios de Integridade Pessoal publicados neste site.

Em dezembro de 2017, publiquei meu primeiro Relatório Anual de Integridade Pessoal. Na época, estes eram os valores pessoais contidos no meu Plano de Vida:

  1. Amor à Sabedoria;
  2. Auto-Responsabilidade;
  3. Virtude e Amor ao Próximo;
  4. Simplicidade;
  5. Saúde;
  6. Liberdade Financeira.

Ao avaliar esse conjunto de valores hoje, percebo que o valor Virtude e Amor ao Próximo é um daqueles valores genéricos que devemos evitar.

As virtudes são muitas e colocá-las todas “num só pacote” significa ser impreciso e vago. Melhor seria eleger como valor pessoal uma virtude específica.

Essa especificação aconteceu no Relatório Anual de Integridade Pessoal 2019, quando valores mais específicos e distintivos passaram a compor meu Plano de Vida:

  1. Saúde;
  2. Humildade;
  3. Caridade;
  4. Amor à Sabedoria (Filosofia);
  5. Gravidade.

Dois anos separam os dois conjuntos de valores acima. Nesse período, por meio do estudo, fui capaz de entender melhor minhas necessidades distintivas e formar um conjunto de valores pessoais que é, ao mesmo tempo, mais enxuto e específico que o anterior.

O valor genérico Virtude e Amor ao Próximo foi substituído por Caridade; e Humildade expressa melhor a minha necessidade distintiva de “ser simples” do que Simplicidade, que é mais genérico e abrangente.

A última modificação que realizei nos meus valores pessoais ocorreu em 28 de abril de 2020, data do meu aniversário de 37 anos.

Pela manhã, durante minha meditação matinal, o conjunto dos meus valores pessoais assumiu a seguinte forma:

  1. Humildade;
  2. Ordem;
  3. Caridade;
  4. Amor à Sabedoria (Filosofia);
  5. Independência;
  6. Gravidade.

Observe que, apesar das diferenças entre os três conjuntos de valores apresentados, é possível perceber certa unidade e continuidade entre eles.

Alguns valores permaneceram os mesmos, enquanto outros foram substituídos não por valores radicalmente diferentes, mas por valores que representam melhor minhas necessidades distintivas.

Com esses exemplos, desejo mostrar que nossos valores pessoais modificam-se:

  1. Quando precisamos dar mais ou menos atenção a certos aspectos de nossa vida ética e moral;
  2. Conforme obtemos um conhecimento mais apurado das nossas necessidades distintivas.

Não tenha, portanto, medo de definir o seu conjunto de valores pessoais. Você poderá fazer modificações sempre que achar necessário.

Como Organizar o Seu Quadro de Valores Pessoais

Valores Pessoais

Se você observar os grandes líderes da história da humanidade, mesmo aqueles com os quais você não concorda, perceberá que todos possuem uma escala de valores bem definida.

Isso ocorre porque ter uma clara definição de seus valores pessoais facilita a tomada de decisões sobre o que fazer a seguir.

Geralmente, nossos valores pessoais são definidos de acordo com nossas experiências de vida:

  • a educação familiar e formal que recebemos
  • as pessoas com quem convivemos
  • os livros que lemos
  • os filmes a que assistimos
  • o local onde vivemos
  • o trabalho que executamos
  • os traumas pelos quais passamos

Infelizmente, muitos dos nossos valores também são formados pelos noticiários que acompanhamos e pelas propagandas a que somos submetidos diariamente.

Como você deve ter notado, nossos valores, em regra, não são resultados de opções inteligentes escolhidas dentro de um plano maior.

Isso pode ser algo pequeno, mas na verdade é determinante na maneira como nos sentimos e, por consequência, na forma como agimos.

Por sorte, podemos deliberadamente alterar e organizar esses valores pessoais e começar a agir de acordo com um novo padrão que desejamos estabelecer.

Um exercício de autoconhecimento

Organizar o seu quadro de valores pessoais é sobretudo um exercício de autoconhecimento.

Isso não significa que deva ser algo complexo, que vá exigir horas de esforço da sua parte.

Comece o mais simples possível: pegue papel e caneta, vá para um lugar isolado e silencioso e comece a meditar sobre quais as coisas que mais importam na sua vida.

Exemplificando. O que você valoriza mais: conforto ou aventura?

A simples opção por um ou outro pode influenciar o emprego que você escolhe, o lugar onde mora, a pessoa que escolhe para viver a vida junto, o estilo das roupas, a forma de investir o dinheiro e muitas outras coisas.

O benefício de saber precisamente quais são os seus valores pessoais está na capacidade de alinhar tudo o que você fará daqui em diante.

Esse alinhamento é um veículo fantástico para levar você a uma existência plena.

Conclusão: E se Você Soubesse os Principais Valores de Uma Pessoa?

Valores Pessoais e Profissionais

Começamos este artigo com um exercício de imaginação.

Mas ele não precisa terminar dessa forma.

O que aconteceria com a sua vida se você soubesse de verdade quais são os seus principais valores?

Você pode ter a resposta para essa pergunta a partir de hoje. A partir de agora.

Tudo o que tem a fazer é pensar sobre si mesmo e começar a listar, em ordem de importância, quais são os princípios que você mais valoriza.

Em seguida, comece a observar dia após dia se o seu estilo de vida, se as coisas que você faz diariamente estão em sintonia com o que você mais valoriza.

Caso não estejam, você precisa começar pacientemente a alterar o seu estilo de vida para que ele fique em harmonia com a sua lista de valores pessoais mais importantes.

Faça isso logo, pois sem esse ajuste harmônico entre valores pessoais e estilo de vida, simplesmente não dá pra ser feliz.

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Notas de rodapé

  1. A Axiologia, que é o ramo da Filosofia que estuda os valores, dirá que “valor é o que dá dignidade ao ser”. Ora, sob certo aspecto, aquilo que “dá dignidade” é aquilo que satisfaz uma necessidade legítima. Por isso dizemos que uma pessoa “vive dignamente” quando tem suas necessidades básicas e fundamentais satisfeitas.