Conheça as 5 Filhas da Inveja e Aprenda a Identificar, Superar e Proteger-se de Pessoas Invejosas

Quando o assunto é inveja são poucas as pessoas que não precisam de ajuda.

Pode-se perceber a presença deste sentimento em todas as modalidades de relações humanas: na vida social comum, nas amizades, no trabalho e até nas famílias.

A inveja é um sentimento poderoso e lidar com ela requer grande atenção e sensibilidade. Para vencê-la é necessário responder com rapidez aos seus ataques.

Neste artigo vamos investigar a inveja em profundidade: o que ela é, sua psicologia, seus “sintomas”, como superá-la e como proteger-se dela.

Se você leva seu desenvolvimento pessoal a sério, irá se beneficiar muito desta leitura.

Vejamos abaixo o nosso roteiro de estudos.

Índice Geral

  1. O Que é a Inveja?
    • A inveja, um “vício justo”
    • Breve distinção entre a inveja e o ciúme
  2. As 3 Condições Para o Surgimento da Inveja
  3. A Dor da Inveja
  4. As 5 Filhas da Inveja Segundo Tomás de Aquino
    • A dinâmica da inveja: As 5 filhas da inveja na prática
  5. Como Identificar a Inveja no Dia-a-Dia
    • Caçando as filhas de inveja
  6. A Inutilidade e Vergonha da Inveja
  7. Como Superar a Inveja: 5 Armas Para o Combate
    • Consideração dos males da inveja
    • A prática da virtude da justiça
    • Humildade e “humildade radical”
    • Amor ao próximo
    • Reconhecimento do próprio valor
  8. A Melhor Estratégia Para Superar a Inveja
  9. Como se Proteger da Inveja?
  10. Conclusão

O Que é a Inveja?

Sócrates (469 a.C. — 399 a.C) a chamou de “a úlcera da alma” e Dante Alighieri (1265 — 1321) a descreveu em sua Divina Comédia como um ser cujos olhos estavam costurados com arame.1

Essas duas referências, feitas por duas das mentes mais brilhantes que a humanidade já conheceu, servem para mostrar a feiura deste sentimento.

A palavra deriva do latim invidia – de IN, “em”, mais VEDERE, “ver”, “olhar”. O invejoso é, portanto, aquele cujo olhar não desgruda nem se distancia dos bens alheios; bens que podem ser materiais, morais ou espirituais.

Mas o que é, afinal, a inveja? Como podemos defini-la?

A definição dada pela psicologia é a seguinte:

[A inveja é] o deslocamento da energia do potencial de determinado indivíduo para a exacerbada preocupação com a satisfação e prazer de outra pessoa, geralmente íntima do sujeito em questão.2

Esta definição, no entanto, deixa de fora o principal componente da inveja: a tristeza.

A inveja não é simplesmente um “deslocamento da energia” e uma “preocupação exarcebada”, ela é tristitia alienum bonumtristeza pelo bem de outra pessoa.

Ela é o resultado da dificuldade de lidar e conviver com o sucesso alheio. É a dor causada pelo desejo não satisfeito de ter as conquistas e vantagens que outras pessoas têm.

A inveja, um “vício justo”

A inveja já foi chamada de “vício justo”, o que pode causar estranheza à primeira vista.

Não foi chamada assim, porém, por possuir em si mesma a virtude da justiça, mas porque carrega nela mesma sua punição: as emoções desagradáveis inseparáveis dela.

O invejoso é punido automaticamente no momento mesmo em que sua inveja aparece. A tristeza e a dor surgem de imediato na consciência do invejoso.

O mesmo não acontece, por exemplo, com faltas como o orgulho ou a preguiça.

O orgulhoso só recebe a punição por seu orgulho quando, por conta de sua altivez e arrogância, todas as pessoas afastam-se dele. E podem se passar muitos anos até que isso aconteça.

Já o preguiçoso talvez só receba a sua punição – ou perceba essa punição – quando se der conta de que o tempo que desperdiçou lhe impedirá de alcançar um objetivo importante.

Mas não é assim com a inveja, cuja punição é sentida imediatamente – e de forma justa – através do abalo da estabilidade psicológica e emocional do invejoso. Daí a inveja ter sido chamada de “vício justo”.

Breve distinção entre a inveja e o ciúme

Convém fazer aqui, antes de seguirmos, uma rápida distinção entre a inveja e o ciúme, que são frequentemente confundidos:

  • A inveja diz respeito à tristeza sentida pelo bem de outra pessoa;
  • O ciúme diz respeito à tristeza sentida pela possibilidade de perdermos um bem que é nosso.

Assim, um cônjuge ciumento teme que seu parceiro faça novas amizades porque vê nisso a possibilidade de ser abandonado.

O ciúme é possessivo e desconfiado, já a inveja é fofoqueira e maledicente.

As 3 Condições Para o Surgimento da Inveja

Três condições precisam ser satisfeitas para que a inveja possa surgir:

  1. O indivíduo deve estar diante de alguém que é portador de um bem visto como superior, seja esse bem material, moral ou espiritual;
  2. O indivíduo pode ou não desejar esse bem para si mesmo, mas deve necessariamente desejar que o portador dele não o possuísse – essa é nota distintiva da inveja;
  3. Esse desejo não satisfeito deve causar dor e tristeza naquele que deseja.

Essa é, grosso modo, a “sequência” que desencadeia o ato de inveja.

Entenda-se por “ato de inveja” a manifestação exterior deste sentimento, que pode dar-se de pelo menos cinco formas diferentes, conforme veremos adiante.

É importante destacar aqui aquela que é a nota distintiva da inveja: o desejo de que o portador de um bem não o possuísse.

O invejoso nem sempre deseja para si aquilo que é do outro, mas sempre deseja que o outro perca essa bem ou que ele nunca o tivesse possuído. Lembremos a fórmula latina: [a inveja é] tristitia alienum bonum – tristeza pelo bem de outra pessoa.

A Dor da Inveja

A dor daquele que inveja não é tanto a dor de não possuir certos bens e qualidades, mas a dor de enxergar-se como incapaz ou indigno deles. É por isso que a psicologia moderna diz que a inveja deriva de frustrações e complexos.

Uma pessoa que soubesse estar à altura do esforço necessário para conquistar certos bens não teria tristeza ao ver estes mesmos bens nas mãos de outros. Teria, em vez disso, uma ambição saudável e cheia de esperança. Os bens e qualidades do outro seriam para ela fonte de motivação.

Como, porém, o invejoso não acredita ser merecedor de certos bens, cai na tristeza da inveja.

Deste ponto em diante, se não inicia uma luta interior, a desordem dos afetos pode levá-lo a praticar uma série de atentados contra o objeto da sua inveja.

Em geral, estes atentados podem ser dirigidos a dois objetos:

  • Contra a reputação daquele a quem inveja;
  • Contra os bens invejados, ao tentar destruí-los ou rebaixá-los.

Estes atentados – os atos de inveja – foram chamados por Santo Tomás de Aquino (1225 — 1274) de “filhas da inveja” e são em número de cinco. Façamos um estudo deles.

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As 5 Filhas da Inveja Segundo Tomás de Aquino

Santo Tomás diz que a inveja é um atentado contra o amor, já que é próprio do amor – e também da amizade, que é um “tipo” de amor – querer o bem do outro como queremos o nosso.

Ele cita Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.), que diz que um amigo é como se fosse “um outro eu”.

A inveja é considerada um dos 7 Pecados Capitais. Os pecados capitais – ou vícios capitais – são aqueles que, quando praticados, levam a pessoa à prática de outros pecados que decorrem do primeiro.

A inveja é, portanto, numa linguagem moderna, “uma bola de neve”. Os vícios que decorrem dela são chamados por Santo Tomás de “filhas da inveja” e são cinco:

  1. Murmuração. A “fofoca”, tão comum e conhecida de todos nós;
  2. Detração. O falar mal abertamente, “sem papas na língua”, também conhecida como difamação ou maledicência;
  3. Ódio. A aversão intensa motivada por medo, raiva ou injúria sofrida;
  4. Exultação pela adversidade. O popular “rir da desgraça alheia”;
  5. Aflição pela prosperidade. A tristeza sentida ao ver o bem ou o progresso do outro.

O conhecimento destas “5 filhas da inveja” é fundamental para nós, pois é a partir do reconhecimento delas na nossa vida diária que nos tornamos capazes de reconhecer a inveja, tanto a nossa própria quanto a de outras pessoas.

Em termos práticos, as “cinco filhas” podem ser entendidas como sintomas ou sinais da presença da inveja.

A dinâmica da inveja: As 5 filhas da inveja na prática

Já sabemos que a inveja é uma tristeza pelo bem do outro e que o invejoso, oprimido por essa tristeza, é levado a tomar certas atitudes para afastar ou eliminar este sentimento.

Ele faz isso praticando um ou mais dos atos descritos acima como “as cinco filhas”, que nada mais são do que as “formas de ataque” do invejoso. Vejamos como se dão esses ataques.

Tudo começa com a tentativa de diminuir os méritos do invejado depreciando a pessoa ou suas conquistas. Essa depreciação pode acontecer de duas formas:

  1. Disfarçadamente, pela murmuração, que é a primeira filha da inveja, popularmente chamada “fofoca”;
  2. Abertamente, pela detração, que é a segunda filha.

Depois das etapas acima, as coisas ficam piores: o invejoso ultrapassa os limites do falatório e começa a desejar o mal do invejado, o que o leva ao ódio, que é a terceira filha da inveja.

Quando, em algum momento, o invejado sofre alguma perda ou passa por alguma dificuldade, acontece então algo horrível: o invejoso se alegra com a queda do invejado e seu infortúnio. É a exultação pela adversidade, a quarta filha, popularmente conhecida como “rir da desgraça alheia”.

Mas quando essa queda não acontece, há então a aflição pela prosperidade, a quinta filha, e o invejoso então mergulha numa tristeza profunda.

Há uma clara gradação entre as filhas da inveja. A murmuração, que é quase sempre a primeira manifestação exterior da inveja, é menos grave do que a detração; que é menos grave do que o ódio e assim sucessivamente.

A aflição pela prosperidade do outro seria, então, o último grau da inveja e o ponto culminante da tristeza do invejoso.

O entendimento destes graus de manifestação da inveja nos fornece todo o conhecimento que precisamos para reconhecê-la e evitá-la. Vejamos como fazer isso.

Como Identificar a Inveja no Dia-a-Dia

Agora que conhecemos bem “as cinco filhas”, estamos aptos a identificar a presença da inveja em nossa própria vida. Essa presença pode dar-se de duas formas:

  • Podemos ser vítimas da inveja de outrem contra nós;
  • Podemos ser nós mesmos os invejosos.

Em ambos os casos o procedimento de identificação permanece o mesmo: o exame de consciência.

Santo Tomás resume muito bem a estratégia que devemos usar para vencer os vícios e desordens:

É importante conhecer a natureza dos vícios, para se afastar deles, e realizar ações que lhes são opostas; e com isso adquirir as virtudes [contrárias aos vícios]. Santo Tomás de Aquino

O primeiro passo, portanto, é memorizar as cinco filhas da inveja e a hierarquia entre elas. Depois devemos nos recolher e iniciar um cuidadoso exame de consciência afim de reconhecê-las em nós.

Quero oferecer a você algumas questões que podem ajudar neste exame.

Caçando as filhas de inveja

Só é possível purificar-se de todas as máculas do amor-próprio pela contemplação. Louis Lavelle3

Segue abaixo um pequeno roteiro de perguntas para o seu exame particular de consciência:

  • Ao saber do sucesso de alguém, pus a inveja em ação por meio de uma fofoca que buscava depreciar a pessoa ou suas conquistas? Espalhei boatos sobre essas coisas? Tentei, de alguma forma, mostrar que aquela pessoa “não é tudo isso”?
  • Tive o descaramento de menosprezar aquela pessoa ou suas conquistas na frente dela ou de outras pessoas? Fiz piadas ou provocações maliciosas?
  • Se minhas fofocas e depreciações atingiram seus objetivos, fiquei feliz com isso? Em outras palavras: me alegrei com a “desgraça alheia”?
  • Se, por outro lado, minhas fofocas e depreciações não funcionaram, fiquei triste por isso? Se sim, consigo entender agora por que a inveja é um “vício justo”?
  • Compreendo agora que, com ou sem sucesso, estes pensamentos alimentam o meu ódio contra aqueles que invejo?

Realize este exame com coragem e recolhimento. Não o faça de qualquer modo nem levianamente.

Se possível, responda as perguntas acima por escrito. A escrita é a mais eficaz ferramenta de desenvolvimento pessoal.

Todos nós já fizemos alguma “fofoca” (murmuração) ou falamos mal de alguém para outras pessoas (detração). Muitos de nós já praticaram o “rir da desgraça alheia” (exultação pela adversidade) ou se entristeceram com o sucesso de alguém (aflição pela prosperidade).

Olhe para estas faltas diretamente, sem procurar desculpas e sem atenuá-las, e envergonhe-se delas – como são feias! – com serenidade.

O ato mesmo de confessarmos a nossa inveja já é o início do nosso processo de cura e superação. Seja criterioso e implacável nesta investigação interior.

A Inutilidade e Vergonha da Inveja

Entre os 7 Pecados Capitais, a inveja é o mais inútil e aquele do qual mais nos envergonhamos.

Vejamos a “utilidade” dos outros 6 pecados capitais:

  • Na gula há o prazer de saborear os alimentos;
  • Na luxúria há o prazer do sexo;
  • Na preguiça há o prazer do descanso e do relaxamento;
  • Na avareza há a utilidade da acumulação de dinheiro ou de bens materiais;
  • No orgulho há o prazer de sentir-se superior aos outros;
  • Na ira há o prazer de subjugar alguém.

Mas e a inveja? Nela não há benefício nem prazer, apenas dor e vergonha.

Alguém pode dizer que gosta de comer muito (gula), de fazer muito sexo (luxúria), de não fazer nada (preguiça); que é “mão de vaca” (avareza), que tem muito “amor-próprio” (orgulho) e que é agressivo e violento em certas situações (ira).

Tudo isso fala-se abertamente, sem vergonha nem medo, mas jamais alguém dirá publicamente “eu sou invejoso”. Na verdade, fazemos de tudo para manter nossa inveja oculta, pois a descoberta dela nos deixaria profundamente envergonhados.

A inveja, além de um “vício justo”, é também inútil e vergonhosa. Temos, portanto, mais uma razão para combatê-la. Vejamos como fazer isso.

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Como Superar a Inveja: 5 Armas Para o Combate

Se queremos vencer a inveja, precisamos aprender a reconhecer seu movimento inicial. O psicólogo americano Kevin Vost chama este “movimento inicial” de protopaixão.4

Trata-se do primeiro abalo interior – aquela “pontada de tristeza” – que sentimos ao receber notícia do sucesso de alguém. Este é o gatilho que deve disparar em nós a preparação para o combate.

A partir deste ponto, inicia-se em nosso interior a consideração racional desta protopaixão por meio de um diálogo interno que pode ser conduzido em duas direções:

  1. Podemos alimentar esta “pontada de tristeza” com pensamentos depreciativos sobre a pessoa ou seus bens;
  2. Podemos “cortar o mal pela raiz” opondo à “pontada de tristeza” tudo o que conhecemos da fealdade da inveja e buscando, assim, frear seu desenvolvimento em nós.

Se optarmos por alimentar a protopaixão teremos como resultado a manifestação exterior da inveja. Na prática, isso significa que esperaremos uma oportunidade para praticar uma ou mais das “cinco filhas”.

Se, por outro lado, optarmos por lutar contra a inveja que começa a nascer em nós, temos algumas armas que podem nos garantir a vitória. Vejamos algumas delas.

1. Consideração dos males da inveja

Nossa primeira arma é a simples lembrança dos males que a inveja irá nos causar se lhe dermos o nosso consentimento e permitirmos que se instale em nós.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que, sendo a inveja um “vício justo”, receberemos punição imediata: nossa estabilidade psicológica e emocional será abalada no momento mesmo deste consentimento.

Também podemos ser levados a praticar uma série de atos indignos contra o invejado e suas conquistas: a fofoca, a maledicência, o desejo do mal dele, a “alegria” por sua queda ou fracasso, a tristeza diante do seu bem etc.

Tudo isso pode nos levar ao ódio contra aquele que, no fim das contas, deveríamos considerar como um irmão.

Além disso, já sabemos que na inveja não há benefício nem prazer. Ela é inútil e vergonhosa e nos causa apenas dor e tristeza.

Ela também pode nos levar a perder amigos, pois ninguém deseja estabelecer laços de amizade com um invejoso, e, em certos casos, até a nossa vida profissional pode ser prejudicada.

A inveja é, enfim, um péssimo negócio. A lembrança destes males pode nos dar o impulso que precisamos para mudar a rota dos nossos pensamentos e eliminar a inveja ainda em seu estágio inicial.

2. A prática da virtude da justiça

“Diante da superioridade de outrem”, nos diz A.D. Sertillanges (1863 — 1948), “só resta uma atitude honrosa: amá-la”.5 Temos neste amor a prática da virtude da justiça.

A justiça é uma virtude que consiste na “vontade constante e perpétua de dar a cada um o seu direito”.6 Ora, é justo que a superioridade tenha direito à nossa admiração. Depreciá-la através de um ato de inveja seria agir com injustiça.

Aquele que procura ser justo está, portanto, bem armado para evitar a inveja em seu movimento inicial ou para vencê-la caso ela já tenha se manifestado plenamente.

Outra excelente razão para agir com justiça e amar aquilo que é superior encontra-se resumido num breve verso de Luís de Camões (1524 — 1580):

Transforma-se o amador na cousa amada.

Aquilo que recebe o nosso amor torna-se, de alguma forma, parte de nós mesmos.

Se, diante da superioridade de alguém, ofereço, em vez da minha inveja, uma sincera e justa admiração, abro-me para possuir aquela mesma qualidade ou bem. Torno-me merecedor dela.

Se, por outro lado, me oponho ao que é superior e amável, separo-me deste bem e torno-me incapaz de obtê-lo. A inveja bloqueia o nosso acesso aos bens invejados.

3. Humildade e “humildade radical”

Muito nos ajuda, para não sermos vítimas da inveja, o cultivo da virtude da humildade. Esta talvez seja a virtude mais oposta e contrária à inveja.

Ela nos permite reconhecer e aceitar nosso lugar no mundo sem nos ressentirmos de que esta ou aquela pessoa seja superior a nós em algo.

Quanto sofrimento a humildade é capaz de evitar!

Quando a cultivamos nos tornamos menos defensivos e menos suscetíveis aos ataques de um amor-próprio desordenado. Ela torna, sem dúvida, nossa vida mais leve.

E há pelo menos dois “graus” de humildade:

  1. A humildade que nos faz reconhecer nosso verdadeiro valor e aceitar nosso lugar no mundo;
  2. A humildade radical ou heróica, que nos faz sempre considerar os outros melhores que nós.

Esta última, claro, apenas poucos podem possuir. Quem de nós, afinal, é capaz de reconhecer e tratar todos como superiores a nós?  Trata-se, realmente, de uma humildade radical.

Epicteto (55 d.C — 135 d.C), o filósofo estóico, parece ter possuído esta forma radical de humildade. Conta-se que, certa vez, ao saber que estava sendo criticado por um defeito, ele não demonstrou nenhuma tristeza ou raiva e não tentou se defender. Eis sua resposta:

Certamente ele não conhecia meus outros defeitos, do contrário os teria trazido à baila também.

Mas ser humilde não significa abrir mão da busca pela excelência pessoal.

Trabalharemos para levar à perfeição todas as nossas qualidades e talentos, mas o faremos sem sofrer com as perturbações da inveja.

Há muita vantagem em sermos humildes. Os humildes sofrem menos e têm menos problemas psicológicos e emocionais do que os vaidosos e soberbos.

4. Amor ao próximo

A inveja é, evidentemente, incompatível com o amor, pois não se pode amar e invejar ao mesmo tempo.

O amor ao próximo nos obriga, claro, a não invejar. Mas não apenas isso: obriga-nos também a alegrarmo-nos com o bem de outra pessoa.

Mas se quisermos levar esse amor às últimas consequências, tornando-o mais perfeito, precisaremos ir além desta alegria. O amor pelo próximo também exige que sejamos benfeitores dos que nos cercam.

Temos então três “graus de desenvolvimento” deste amor ao próximo:

  1. Não invejar;
  2. Alegrarmo-nos com o bem dos outros;
  3. Agirmos em benefício deles, sendo seus benfeitores.

O terceiro grau deste breve “programa de desenvolvimento do amor” é, segundo Aristóteles, a essência da virtude:

Com efeito, a virtude consiste mais em beneficiar do que ser beneficiado e mais em realizar atos nobres do que não realizar atos vis.

Como, então, beneficiar os que nos cercam? Estando atento as necessidades deles e respondendo a elas com objetividade.

Caridade é objetividade em relação ao próximo. Frithjof Schuon

Na prática, ser um benfeitor significa esforçar-se para realizar gestos de gentileza e auxílio. E esses gestos também devem se dirigir àqueles que invejamos.

Essa atenção e cuidado nos treinará no amor ao próximo e fará, pouco a pouco, a nossa inveja enferrujar.

5. Reconhecimento do próprio valor

Por último, mas não menos importante, devemos reconhecer nosso próprio valor.

Trata-se aqui, mais uma vez, de praticarmos a virtude da justiça, aplicando-a agora a nós mesmos: temos qualidades e talentos e devemos reconhecê-los e amá-los.

A grande causa da infelicidade dos homens é a ingratidão em relação aos próprios talentos. Acreditam que aquilo que fazem com naturalidade não tem valor e esforçam-se para imitar e copiar outros.

Mas o que é do outro e brilha nas mãos dele deixaria de brilhar se caísse em nossas mãos, “pois que homens diversos nascem para tarefas diversas”.7

Não devemos, portanto, empenhar-nos na busca de algo que já não esteja conosco. Devemos, sim, fazer florescer o que já é nosso.

Quem desempenha melhor o papel que é o seu, e que não pode ser desempenhado por nenhum outro, é também o mais afinado com a ordem universal: ninguém pode ser mais forte nem mais feliz. Louis Lavelle8

Devemos, enfim, descobrir as riquezas que já trazemos em nós e fazê-las frutificar. Não fazer isso seria trair nosso propósito e vocação e tomar o caminho da insatisfação que conduz à infelicidade.

A Melhor Estratégia Para Superar a Inveja

Depois de considerarmos as “cinco armas” que podemos usar para combater a inveja, desejo apresentar aquela que considero ser a melhor estratégia para vencer esse combate.

Trata-se da posse de um Plano de Vida que amamos e que ocupa-nos totalmente. O homem que carrega no coração um propósito sincero e bem definido não sucumbe à inveja.

Quem conhece a si mesmo e conhece o caminho de vida que deve percorrer não desperdiça seu tempo e energia com mesquinharias.

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Como se Proteger da Inveja?

Seja simples, humilde e silencioso.

Muitas pessoas atraem a inveja alheia quase “por esporte”. Gostam de exibir-se e de apresentar seus bens e conquistas sempre que têm uma oportunidade.

As redes sociais estão repletas de pessoas assim e quase todos nós já fizemos isso alguma vez, ainda que sem uma consciência clara disso.

A verdade é que não podemos gerenciar os sentimentos de outras pessoas. Se cuidarmos da nossa própria inveja já estaremos fazendo um grande trabalho.

A única coisa que está ao nosso alcance é agir sempre com simplicidade, tomando cuidado para não inflamar nas pessoas ao nosso redor esse terrível sentimento. Ter esse cuidado também é amar ao próximo.

A psicologia moderna nos diz que a inveja deriva de certas frustrações e complexos, e como não podemos conhecer as “feridas interiores” das pessoas que nos cercam, a atitude mais prudente que podemos ter é a de evitar todo e qualquer exibicionismo desnecessário.

A simplicidade e a humildade são virtudes belíssimas e nos ajudam a evitar muitos problemas.

Conclusão: A Inveja Pode e Deve Ser Superada

Neste longo artigo exploramos a desordem da inveja em detalhes.

Sabemos agora o que ela é, conhecemos as condições para o seu surgimento, suas principais características, seus “sintomas”, como superá-la e como proteger-se dela.

Vejamos um resumo completo do que aprendemos em nosso estudo:

  • A inveja é:
    1. segundo a psicologia: o deslocamento da energia do potencial de determinado indivíduo para a exacerbada preocupação com a satisfação e prazer de outra pessoa, geralmente íntima do sujeito em questão;
    2. tristitia alienum bonum – tristeza pelo bem de outra pessoa.
  • A inveja também é:
    1. um “vício justo”, pois sua punição – o abalo da nossa estabilidade psicológica e emocional – é imediata;
    2. inútil, pois nela não há benefício nem prazer, apenas tristeza e dor;
    3. vergonhosa, pois sempre fazemos o possível para ocultá-la dos outros.
  • As 3 condições para seu surgimento são:
    1. o indivíduo deve estar diante de alguém que é portador de um bem visto como superior;
    2. o indivíduo pode ou não desejar esse bem para si mesmo, mas deve necessariamente desejar que o portador dele não o possuísse;
    3. esse desejo não satisfeito deve causar dor e tristeza.
  • A nota distintiva da inveja é:
    1. o desejo de que o portador de um bem não o possuísse.
  • Os bens invejados podem ser de 3 tipos:
    1. material: um carro, uma casa, uma viagem, etc.;
    2. moral: o bom comportamento, as virtudes, a diligência no trabalho, etc.;
    3. espiritual: a religiosidade, a paz interior, o amor ao próximo, etc.
  • As 5 filhas da inveja são:
    1. Murmuração;
    2. Detração;
    3. Ódio;
    4. Exultação pela adversidade;
    5. Aflição pela prosperidade.
  • Estas 5 filhas das inveja podem ser entendidas como:
    1. sintomas ou sinais da presença da inveja;
    2. as “formas de ataque” do invejoso.
  • O método para identificar a inveja é:
    1. o exame de consciência.
  • As 5 armas para combatê-la são:
    1. a consideração dos males da inveja;
    2. a prática da virtude da justiça;
    3. a humildade e a “humildade radical”;
    4. o amor ao próximo;
    5. o reconhecimento do próprio valor.
  • A melhor estratégia para superar a inveja é:
    1. a posse de um Plano de Vida que amamos e que ocupa-nos totalmente.
  • Para nos protegermos da inveja devemos:
    1. agir sempre com simplicidade, tomando cuidado para não inflamar nas pessoas ao nosso redor esse terrível sentimento;
    2. evitar todo e qualquer exibicionismo desnecessário.

Parabéns por seu empenho e seriedade. Espero que agora você sinta-se preparado e motivado para combater e vencer a inveja.

A vida já tem problemas e desafios demais e devemos, tanto quanto possível, tirar do nosso caminho os afetos desordenados que dificultam-na ainda mais e desnecessariamente.

Se agirmos com integridade alcançaremos tudo o que quisermos. Tudo o que precisamos é de um propósito bem definido e da capacidade de trabalharmos com ordem e paz.

Se você precisar de ajuda para isso, conte comigo: conheça meu trabalho como coach. Será um prazer ajudar você a conquistar tudo aquilo que você sonha e merece.

Coaching com André Valongueiro

Notas

  1. Dante Alighieri, Purgatório, Canto XIII.
  2. Esta definição encontra-se em diversos sites na internet, mas não encontrei nenhuma referência ao autor que a estabeleceu. Embora, no geral, ela esteja correta, acho-a imprecisa e incompleta.
  3. Louis Lavelle, A Consciência de Si, 2014, p. 89.
  4. Kevin Vost, Os Sete Pecados Capitais, 2019, p. 105.
  5. A.D. Sertillanges, A Vida Intelectual, 2014, p. 15.
  6. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 58, a. 1.
  7. Epicteto, O Manual Para a Vida, c. 29.
  8. Louis Lavelle, A Consciência de Si, 2014, p. 65.